ENTREVISTA – Voluntariando pelo Sudeste Asiático

– Por Letícia Mello

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Ela tinha o sonho de viajar pelo Sudeste Asiático voluntariando. O sonho virou um projeto lindo chamado Do For Love. Deu tão certo e é tão inspirador, que era impossível não querer entrevistar a Letícia e saber de tudo sobre essa experiência. Você já pensou em voluntariar pelo mundo?

– O que te fez/impulsionou a viajar?

A minha vida mudou desde que coloquei o pé na estrada pela primeira vez. Depois que você começa, fica praticamente impossível parar. Sempre tive vontade de fazer trabalho voluntário, mas os valores altos cobrados pelas agências sempre me desmotivaram. Até que chegou um momento em que eu não permiti que essa barreira fosse maior do que os meus sonhos. Resolvi fazer tudo de forma independente e arriscar.

– Por que voluntariado? Encontrou outras pessoas fazendo a mesma coisa? 

Sempre me vi um pouco balançada diante das indiferenças desse mundo, mas nunca soube ao certo como me posicionar em relação a elas. O trabalho voluntário sempre me pareceu uma ótima resposta a essa minha inquietação, ainda mais se eu pudesse aliar a ele o meu desejo incansável de viajar pelo mundo buscando conhecer outras culturas. Cansa trabalhar pelo dinheiro, chega um ponto em que isso não te satisfaz mais. Aquela sensação de que você está simplesmente sobrevivendo é horrível, e eu sabia que, na Ásia, eu poderia fazer muita coisa com pouca grana, então seria um lugar perfeito para voluntariar. Eu queria entender o que é trabalhar por outra recompensa muito maior do que o dinheiro. Nos locais onde voluntariei, encontrei muitas pessoas voluntariando, cada um com suas motivações.

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– Por que ensinar inglês?

Eu queria trabalhar com crianças e queria fazer alguma coisa que tivesse um reflexo importante na vida delas. O inglês proporciona a essas crianças a oportunidade de trabalhar com o turismo ao invés de, por exemplo, trabalhar como camponês, uma atividade que no Camboja paga em torno de 1 dólar por dia de trabalho. Então a língua Inglesa traz essa esperança de um trabalho melhor.

– Por que Tailândia, Vietnã e Camboja?

Sempre sonhei em viajar para a Ásia. Quando comecei a pesquisar instituições, eu consegui o contato de uma escola na Tailândia que me aceitaria na data que eu planejava começar a minha viagem e tomei esse contato como ponto de partida. Enquanto pesquisava, vi que existia bastante oferta no Camboja e Vietnam. Por questões geográficas, achei que seriam boas opções e as mantive em mente. Mas não planejei nada antecipadamente, tudo foi acontecendo no decorrer da viagem.

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Tailândia

– O que a sua família e seus amigos acharam da sua viagem? E as pessoas que você encontrou no caminho?

Ah, tem aqueles que me acham maluca e tem aqueles que já esperam isso de mim. Foi um misto de preocupação e de admiração pelo que estava me propondo a fazer. Meu pai e minha mãe foram os primeiros a saber e os primeiros a me apoiar. No caminho, encontrei muitas pessoas que estavam fazendo o mesmo que eu e também muitas pessoas que ficavam admiradas, uma vez que é uma rota de mochileiros e que poucos estão lá com esse propósito.

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– O que você esperava antes de ir e o que buscava quando partiu? O que acabou encontrando?

Saí do Brasil com esse propósito de ensinar, que pra mim foi totalmente novo, eu nunca tinha entrado em uma sala de aula como docente. O que eu acabei encontrando foram pessoas incríveis que me ensinaram muito, mas muito mais do que eu consegui deixar de ensinamento. Eles dão show na aula da vida, e o que eu tinha para ensinar ali acabou ficando muito singelo. Aprendi com eles na simplicidade e na superação. Via a mim e ao mundo de forma muito complexa e lá consegui entender muita coisa de forma simples e clara.

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Aula para o monges naTailândia

– O que levou você a criar uma página sobre a viagem e por que escolheu nomeá-la de “Do for Love”?

O “Do for Love” surgiu da idéia de compartilhar as informações sobre o trabalho voluntário e mostrar que era possível fazer muito com pouco. Achei que seria relevante criar uma página contando a minha trajetória e levando informação às pessoas.  Queria trazer um pouco de inquietação para a vida das pessoas.

A idéia fundamental do Do For Love é amar a si mesmo. Ao longo do tempo, talvez, tenha sido mais benéfico para a sociedade nos dizer que quem ama muito a si mesmo é egoísta e individualista, dessa forma eles teriam pessoas amando coisas, o que tornaria a troca muito mais lucrativa e o sistema continuaria funcionando perfeitamente. Precisamos, antes de tudo, esquecer essa idéia e entender de uma vez por todas que amar a si mesmo é essencial, apenas compreendendo a nós mesmos é que poderemos compreender aos outros. Ame a você mesmo que o seu amor transbordará, pois será verdadeiro. Quando você ama a si mesmo, você automaticamente passa a amar aos outros e, então, você estará fazendo por amor, pois não existe nenhuma outra razão maior para que o faça. Este é o primeiro passo para o “Do For Love”.

 Se precisar fazer escolhas: Do For Love! Faça, primeiramente, por amor a você, escolha o que te faz feliz, escute aquele chamado interno que, consequentemente, você estará atingindo todos à sua volta com amor. E é de amor que o mundo precisa.

 E é importante dizer que a ideia deste projeto não é fazer com que você mude o rumo da sua vida e parta para um voluntariado em terras desconhecidas, pelo contrário, cada um tem uma resposta diferente para o seu “Do For Love”, basta encontrá-la.

 E aí fica a pergunta para você, o que é o seu “Do For Love”?

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Aniversário da Letícia no Vietnã

– Sair para uma aventura dessas sozinha te proporcionou o quê? Que vantagens e desvantagens você percebeu em viajar sozinha e acompanhada?

Todas as minhas aventuras e viagens eu parti sozinha. Já na minha primeira viagem, eu percebi que as pessoas nunca iam até o final, por mil motivos diferentes, elas desistiam de se arriscar em algo novo. Eu sempre fui muito teimosa e persistente, então eu acabava seguindo em frente sozinha mesmo. E não demorou muito para eu perceber que viajar sozinha era muito benéfico. Estar sozinha te traz autoconhecimento, você aprende a perceber você por você mesmo. Além de que você se torna uma pessoa mais social, conhece mais pessoas e se torna aberto ao novo. Não vejo desvantagens em viajar sozinha. Você se expõe a muitos riscos, mas acho que o desafio e as dificuldades é que trazem crescimento, então não devemos ter medo de nos arriscar.

– O que mais te marcou nessa sua viagem?

As pessoas que eu conheci, os lugares que eu vi e os sabores que eu experimentei. A Ásia te traz isso tudo numa intensidade inesquecível.

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 Letícia participou da construção da casa de uma família que não tinha nada no Camboja

– Que outras viagens você fez desde que colocou a mochila nas costas e o pé na estrada?

A minha primeira viagem foi por aquele programa “Work and Travel” para os Estados Unidos, em 2006, no meu primeiro ano cursando Turismo e Hotelaria na faculdade. Os meus 3 meses de estadia viraram 7 meses e, com todo o dinheiro que eu juntei, fiz o meu primeiro mochilão: rodei, sozinha, por 20 dias, a Califórnia e o Hawaii. No ano seguinte, trabalhei durante o verão e, no último mês de férias, fui para o Peru viver com uma família peruana, surfar e aprender inglês. Para o meu estágio final da faculdade, eu consegui um contrato com um hotel na Nova Zelândia e passei 7 meses lá. Voltei ao Brasil por algum tempo e, depois, fui morar na Austrália, com direito a uma viagem para a Indonésia, onde eu oficializei o meu amor pela Ásia e, algum tempo depois, voltaria para realizar o “Do for Love Project”.

– Você pensa em continuar com o projeto “Do for Love”? Você já pensou na possibilidade de até mesmo chamar outras pessoas para participar?

Já pensei nisso tudo e quero continuar, sim, com o “Do for Love”.

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Voluntariado com uma família de Sapa, no Vietnã

– Depois desta viagem, o que você fez e/ou o que pensa em fazer? Há outros projetos em vista?

O “Do for Love” foi um projeto pessoal realizado de forma independente, me organizei para que ele acontecesse com um orçamento baixo (em torno de U$D 500,00 mensal). Depois de seis meses viajando, retornei ao Brasil e trabalhei por um período. Cada vez tem sido mais difícil para mim me adaptar à vida no Brasil, depois que você vive a realidade de outros lugares, a nossa se torna indigesta. Na minha primeira viagem acompanhada, eu e o meu namorado decidimos embarcar em uma aventura para os Estados Unidos, onde temos a oportunidade de trabalhar e fazer contatos. Passei por um período de adaptação e, em breve, pretendo retomar o Projeto, já cheia de idéias para colocar em prática.

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Tailândia

– Que conselhos você dá para quem quer fazer voluntariado de forma independente? Como você se preparou?

Não pense muito. Se você ficar calculando, pensando, cogitando e analisando demais, você vai acabar desistindo. Nunca haverá um momento perfeito para você realizar um projeto desses, então crie esse momento e as oportunidades. Faça acontecer e não desista. Eu não sou de me preparar muito, preparo a base e o resto eu sei que vai se concretizando, e aí está a importância de você fazer por amor, porque se você sabe o que você quer, você segue em frente independente dos obstáculos que surgirem.

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Sobre ela…

Me chamo Letícia Mello, tenho 24 anos e meus pais são meu maior orgulho e meu maior exemplo de vida, me criaram para ser independente e para o mundo, e eu acabei levando isso muito mais ao pé da letra do que eles esperavam. As pessoas que encontrei durante minhas jornadas são o grande tesouro que eu tenho guardado. Adoro esportes, meu favorito é o surf, faço de tudo, mas não faço nada bem. Não dispenso uma boa festa ou uma cervejinha num pé sujo com os amigos. Tenho um carinho especial por crianças e uma necessidade de ajudar quem precisa, de preferência se for um desconhecido. É difícil não criarmos expectativas, então, quando ajudamos alguém que não conhecemos, acredito que o fazemos da forma mais pura e sincera.

Tenho muita dificuldade em me definir, eu sou uma junção da criação que eu tive e de fatos, lugares e pessoas que passaram pelo meu caminho. Estamos em constante evolução e nos definir é como achar que a obra está concluída, sendo que não está.

Posso dizer que sou desapegada, inquieta, curiosa e determinada.

E posso facilmente ser insistente, desorganizada, teimosa e desligada.

Além de não saber me definir, não tenho residência fixa e nem profissão definida, aprendi que a minha casa é onde eu estou nesse momento e que a minha profissão varia de acordo com o que eu preciso fazer para poder viajar. Acabei me formando em Turismo e Hotelaria, já que fui incentivada a fazer o que eu amava.

Minha maior paixão é o desconhecido. Meu maior medo é me tornar uma mera observadora da vida. Por isso viajo, conheço pessoas, tenho empatia por muitas delas, me jogo, sou positiva, amo meus amigos, acredito que para viver bem, basta fazer o bem, experimento o novo e não me canso. Sinto que não posso parar e que seguir aquela vozinha interior é fundamental pra sermos felizes…

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Entrevista, revisão e edição : Ellen Queiroz 

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